Se você veio até aqui achando que eu ia cavacar desculpas para dizer que eu gostei do filme, sinto muito. A Torre Negra é um filme medíocre, com uma narrativa cheia de exposição, com personagens femininas estereotipadas, caindo em todos os clichês e que não traz absolutamente nada de novo ao mundo das histórias que misturam sci-fi e fantasia. Pelo que eu conheço da história do livro, A Torre Negra é também uma péssima adaptação.

Dito tudo isso, se esse filme tivesse sido lançado na década de 80, hoje ele seria considerado um clássico geracional. O pôster, daqueles que são novos, mas têm a marquinha digital para fingir que é velho, ia estar emoldurado na parede de muito marmanjo nerd. Porque no fundo, A Torre Negra é a cópia cuspida e escarrada dos clássicos infanto-juvenis da década de 80. Os clássicos para garotos, obviamente.

O plot pode ser resumido em: Um adolescente desajustado, mas que na verdade possui um grande poder/habilidade, encontra um adulto/ser mágico/extraterrestre, os dois ficam amigos, lutam contra o mal e vencem. Existe algum tipo de moral aí no meio.

Te lembrou de alguma coisa? A mim também.

The Last Starfighter, Back To The Future, Masters of The Universe, Terminator 2 e DragonSlayer. Eu sei que Terminator 2 é de 1991, mas vocês entenderam. Optei por manter Star Wars de fora porque não estou procurando Treta. Oh, pera. Droga.

Obviamente ser uma cópia perfeita de qualquer plot de filmes da década de 80 não é sinônimo de qualidade. Eu saí do cinema com a sensação de que, fosse A Torre Negra uma obra original e não uma adaptação e, tivessem os produtores/roteiristas aproveitado melhor o clima nostalgia e saudosismo, teríamos aí o novo Stranger Things.

O universo da A Torre Negra tem um monte de elementos legais que, bem feitos, entregariam um clima muito “maneirinho oitentista”. A arma do Pistoleiro é feita do ferro da espada do equivalente ao Rei Arthur do seu mundo, quão maneiro é isso? Toda a fala dos Pistoleiros com o rolê “quem mata com a mão esqueceu o rosto do seu pai, eu mato com o coração” é ridiculamente legal e vai ficar grudada na minha cabeça na mesma proporção do Juramento do Lanterna Verde. São muitos elementos legais, mas mal utilizados. Talvez, se eles tivessem abraçado essa versão como algo alternativo ao livro, do ponto de vista de Jake, então eles tivessem conseguido alcançar um público específico que se interessa por narrativas de contos de fadas masculinos com cowboys…?

Se você foi uma das pessoas que achou que os problemas da adaptação começaram quando escalaram Idris Elba no papel de Roland/O Pistoleiro, você está errado (além de provavelmente ser um pensamento de base racista). Elba faz milagre com o pouco que lhe deram de roteiro e história que, mesmo com os milhões de diálogos de exposição, consegue entregar um personagem relativamente interessante. E ninguém, absolutamente ninguém, ficaria tão cool quanto ele ao recarregar aquela arma. Socorro. Matthew McConaughey, por outro lado, esqueceu em casa a cartilha de atuação e resolveu que ia só levantar e abaixar sobrancelhas, maneirar no sotaque e é isso. Flag tem tanta emoção ou complexidade quanto o abajur da minha sala, só que o meu abajur pelo menos tem uma função factível e com a qual é possível se relacionar.

SPOILER: Esse filme é tão década de 80 que eles terminam o filme comendo um cachorro-quente em NY.

Uma das coisas nas quais A Torre Negra mais encaixa nesse clima “filme da década de 80” é na representação feminina. Eu posso estar errada mas, pelo menos no primeiro livro, Jake Chambers mal fala da família e da mãe. No filme optou-se por ter uma mãe (a maravilhosa Katheryn Winnick, de Vikings) e matá-la como maneira a motivar Jake – motivação essa desnecessária, já que desde que descobriu o seu chamado ele sentou na primeira fileira do trem do heroísmo e escolheu a janela. Mas o que é um filme de sci-fi/fantasia sem uma personagem feminina ser queimada vida, não é mesmo? Temos também o clichê/estereótipo da mulher asiática mística na presença de Arra, uma personagem que tem poderes similares ao de Jake, que é literalmente a “gatekeeper” e que também morre pelas mãos de Flag. Bingo! o/

Vale a pena assistir A Torre Negra? Olha, ver Idris Elba gigante numa tela de cinema sempre vale a pena. Verdades a parte, se você colocar de lado que é uma adaptação, e entrar na história com a mentalidade de que esse é um filme medíocre da década de 80 que hoje virou clássico só porque os meninos gostaram quando criança, então talvez. Caso contrário, é melhor esperar até os direitos do livro estarem novamente no mercado e alguém fazer uma adaptação em série de televisão para a HBO. Fica aí a dica, que tal substituir Confederate por A Torre Negra?

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