Nesse fim de semana fui ao cinema assistir ao filme Carol na companhia da namorada. Não sabia ao certo o que esperar, porque só o que eu tinha visto sobre o filme foi que fez bastante sucesso no festival de Cannes e que está concorrendo a alguns Oscars (Melhor atriz – Cate Blanchett, Melhor Atriz Coadjuvante – Rooney Mara, Melhor Roteiro Adaptado – Phyllis Nagy, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora), mas se tratando de um filme sobre um relacionamento lésbico sempre fico com aquela pulga atrás da orelha em saber como que nós lésbicas seremos representadas dessa vez, já que na minha experiência é difícil ver uma obra de ficção na qual o relacionamento entre duas mulheres seja representado de forma realista e não hipersexualizada/fanservice pro público masculino. Mas dessa vez posso dizer que me surpreendi, já que achei o filme bem realista e apesar de se passar nos anos 50, bem atual.

O filme é baseado no livro “The Price of Salt” de Patricia Highsmith que foi lançado em 1952. Segundo o que eu pesquisei, o livro foi baseado em um relacionamento de Patrícia com uma outra autora da época, e isso, aliado ao fato do diretor do filme, Todd Haynes, ser assumidamente gay, diz muito sobre a forma como a história é contada nas telas, sobre o porque dela ser realmente crível e realista, inclusive nas dificuldades que traz a homossexualidade e o lesbianismo pra vida de alguém, afinal se não está fácil pras lésbicas de 2016 saírem dando a cara a tapa, imaginem pras de 1950 né?

O diretor Todd Haynes com a atriz Cate Blanchett durante as gravações.

O diretor Todd Haynes com a atriz Cate Blanchett durante as gravações.

Carol conta a história de duas mulheres, Therese Belivet (Rooney Mara), uma funcionária de uma loja de brinquedos e aspirante a fotógrafa, e Carol Aird (Cate Blanchett), uma mulher que é representada a todo o momento como mais velha, mais experiente e mais rica do que a primeira. As duas se conhecem quando Carol vai a loja em que Therese trabalha em busca de uma boneca pra dar de presente de Natal a sua filha, e a partir daí as duas começam a desenvolver um relacionamento, não diria amoroso, porque demora um bom tempo pra elas realmente se explorarem de forma romântica, física e afetiva, mas um relacionamento de trocas de experiências, de apoio, companhia e de profundo interesse pela vida da outra.

Só aí nesse ponto eu já vi uma grande semelhança com relacionamentos lésbicos atuais, pois em 2016, na era da internet, do Tinder e dos famigerados “nudes”, via de regra, quando duas mulheres se conhecem e se interessam pela outra, elas se esforçam para se conhecer ao máximo e se preocupam com o bem estar da outra, antes mesmo de qualquer coisa se concretizar, muito provavelmente (opinião pessoal aqui), porque nós sabemos o quanto a vida é dura pra gente enquanto mulher e enquanto lésbica e esse tipo de relação forte e profunda de confiança e apoio é o que nós mais ansiamos em outro alguém. O que explica aquele clichê, tão real, de lésbicas ‘casarem’ muito rápido, afinal é muito mais difícil sobrevivermos sozinhas.Therese e Carol na loja de brinquedos

O filme conseguiu me trazer muitas sensações, apesar de ser bem ‘morno’ tanto na fotografia, quanto na cenografia e no roteiro, nada é exagerado, tudo é muito delicado. E não digo ‘delicado’ de forma pejorativa, relacionando essa delicadeza a coisas suaves e femininas, pelo menos não no conceito que a sociedade tem de feminino enquanto frágil ou fraco, mas delicado no sentido de complicado mesmo, de difícil de lidar, de difícil de mostrar, de explicar, de compreender, exatamente como é a vida de uma mulher lésbica, com toda a dificuldade que existe em se lidar com os padrões sociais que nos são impostos enquanto mulheres e ainda mais, lidar com uma heternormatividade compulsória na qual não conseguimos nos reconhecer. Carol está se divorciando de Harge Aird (Kyle Chandler), um homem rico e de posição social elevada, com que se casou, apesar de sua orientação sexual, por ser exatamente o que se esperava dela, mulher, já Therese lida durante todo o filme com o problema de não saber dizer não, de não saber se impor e dizer o que quer, afinal foi ensinada que seu dever enquanto mulher é o de ser submissa às vontades dos outros (leia-se homens) e não de ter vontade própria. Nesse sentido o filme é empoderador e até sororário, porque mostra o quanto elas crescem juntas e começam a se impor em suas vidas particulares.

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Apesar de ser empoderador e de trazer essa representatividade, o filme é mais triste do que qualquer coisa, [SPOILER]  já que um dos ponto centrais nele é a questão da guarda da garotinha Rindy Aird no divórcio de Carol e Harge e de como a sexualidade de Carol é usada pra categorizá-la pelo ex-marido, pela família dele e pela sociedade dos anos 50, como incapaz de ter a guarda da filha, como se por ser lésbica ela pudesse deixar de ser mãe, como se a maternidade tivesse alguma relação com a heterossexualidade, colocando Carol na impossível situação de ter que escolher entre ser quem é e poder viver feliz com quem ama ou ter a guarda de sua própria filha [/SPOILER]. E isso foi o que mais me marcou (e na Mari, minha namorada, também), o quão triste nós saímos do cinema ao nos lembrarmos o quão sozinha nós estamos, o quanto nossa luta foi difícil e ainda é, já que ainda hoje, mães lésbicas sofrem muita lesbofobia e deslegitimação da sua maternidade por conta de sua sexualidade, e ainda, deslegitimação de sua sexualidade por conta da maternidade.

Vendo esse filme retratar os anos 50 e percebendo o quanto ele é atual, fiquei com essa sensação de impotência, como se não importa o quanto nos empoderamos, ainda somos menores que toda essa opressão que sofremos. Mas aí eu me lembrei que pelo menos em 2016 Carol teria pra onde correr, teria um feminismo bem forte pra apoiá-la, um movimento LGBT, advogadas, outras mães, ativistas, militantes de todo tipo e uma série de pessoas que, talvez, com a pressão certa e bom uso da internet, conseguissem ajudá-la a manter a guarda de sua filha e a se sentir menos sozinha e isso me deu um pouco mais de gás pra continuar na luta.

Só faço uma ressalva aos meus elogios ao filme, que é o fato de que só tem uma única atriz negra no filme todo e ela tem zero falas e só serve café na casa dos ricos. O que alguns dirão que é pela época e ambiente em que se passa a história, mas que evidencia uma clara preferência em se contar histórias de pessoas brancas, inclusive em filmes sobre outras minorias, o que é absurdo e racista e precisa ser mudado, afinal lésbicas negras também PRECISAM de representatividade!

Apesar disso achei o filme muito bom, porque trata de coisas pertinentes que são sempre deixadas em segundo plano, já que supostamente “não interessam ao público em geral”, o que é só mais um jeito de dizer que incomoda os opressores, e que vão muito além do sexo lésbico, que já é tão explorado pelos motivos errados, ou até do romance lésbico, que às vezes é explorado só pra agradar um público que gosta de romances mesmo.

Carol não é um filme “muito feminino” como alguns críticos por aí andaram escrevendo, mas sim um filme muito humano, cheio de dor, de sofrimento, de esperança e de força feminina, mesmo dentro de uma sociedade tão machista quando a dos anos 50.

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