Essa semana foi louca, gente. Teve um monte de ~influenciadores de opinião~ levando bronco e dando o braço a torcer. Nem todas os pedidos de desculpas foram de fato pedidos de desculpas, mas ok. Aí veio Cláudio Assis.

O diretor de Amarelo Manga, junto com Lírio Ferreira, diretor de Baile Perfumado, deram um show de machismo durante um evento em que a diretora Anna Muylaerte, uma das poucas diretoras brasileiras a ter algum espaço na mídia, discutia seu mais recente filme Que horas ela volta?. Nenhum dos dois acha que foi machista, óbvio. Machistas raramente acham que são machistas. Lírio pediu desculpas, aquele tipo de desculpas meia boca, mas pediu. Cláudio Assis não se arrepende de nada.

Em resposta à Folha ele disse que “Faria a mesma coisa com Beto Brant. Não me arrependo.” Além disso comparou ser chamado de magrão com chamar Regina Casé, atriz do filme, de gorda, e disse que chamou o maquiador de bicha em tom de brincadeira. Também contestou a penalidade que a Fundação Joaquim Nabuco deu a ele e ao Lírio, acha que o público em potencial e a equipe de seu próximo filme vão sair perdendo, e considera punir o filme uma censura. O problema é com ele, e não com o filme.

Cláudio poderia até fazer a mesma coisa com Beto Brant, mas ainda sim o que ele fez com Anna Muylaerte seria machismo. Porque Brant é homem como ele, tem tanto (ou mais) espaço de mídia do que ele. Assim como Cláudio ele não precisa se esforçar em dobro para provar que é boa roteirista e diretora, o que o diretor brasileiro homem faz é quase que automaticamente considerado “obra de autor”. Cláudio não entende que há um desequilíbrio de poder entre ele e Anna, não porque um é melhor diretor do que o outro, mas porque a ele sempre vão ser dadas melhores oportunidades do que à uma mulher. Porque ele é homem e isso faz dele, aos olhos da nossa sociedade patriarcalista, melhor do que qualquer mulher. Fora o fato de que ele resolveu causar não só num evento com uma diretora mulher, mas num filme com protagonista feminina.

Ser apelidado de Magrão não tem o mesmo peso de chamar uma atriz de gorda porque à Cláudio não é imposta a ditadura da beleza, um padrão praticamente inalcançável a que todas nós mulheres somos submetidas. Cláudio nunca foi considerado uma pessoa menor ou pior por ser magro, enquanto Casé com certeza já escutou todo tipo de desaforo por não estar dentro desse padrão mágico de atrizes magras e gostosas. Principalmente dentro do contexto em que a fala dele está, chamar Casé de gorda não é apenas uma constatação do fato dela estar acima de um suposto peso ideal, é mostra de gordofobia e machismo.

“É só uma brincadeira” é o tipo de coisa que ajuda a alimentar a homofobia que faz criar grupos de extermínio de gays no nosso país. Enquanto “gay”, “viado” e outras palavras forem usadas com uma conotação negativa a homofobia vai sempre estar presente, e se ela nunca vai embora a violência física sempre a acompanhará. Justificar o seu ato homofóbico dizendo que é uma brincadeira é ignorar toda a merda que a comunidade LGBT passa todos os dias no nosso país.

E, finalmente, a minha parte preferida da fala de Assis, quando ele fala que a penalidade que ele vai sofrer vai afetar outras pessoas além dele. É incrível como Assis parece saber que a merda que ele fez vai afetar a todo mundo, menos à ele. Porque é assim que acontece quando uma pessoa privilegiada faz merda – a bosta respinga em quem está em volta, mas não nela mesma. Sim, a equipe vai ter que achar outro cinema pra assistir ao filme, o público que quiser ver o filme depois dessa demonstração de misoginia também. Anna Muylaerte viu a discussão sobre o seu filme, que vem sendo considerado talvez o melhor filme nacional do ano, se transformar em uma discussão sobre dois diretores homens egocêntricos.

Cláudio, se o mundo continuar funcionando da mesma maneira que sempre funcionou, vai receber um puxão de orelha, vei ter esse banimento da Fundação. Vão taxar (como já estão fazendo) sua atitude de molecagem, coisa de homem bêbado. Vão defende-lo dizendo que seus filmes não são machistas, que não se pode culpar a obra pelo autor, vão se escrever textos que nunca vão de fato alcança-lo (como este) e aos poucos vai-se esquecendo de tudo isso. Talvez no lançamento de seu próximo filme alguém comente sobre o que ocorreu nesse fim de semana. Mas, no final, vão todos aplaudir mais essa obra prima do diretor, um filme que faz com que o seu ato de criancice fique para trás. E nós vamos continuar nessa roda pequena e irritante que é o machismo no cinema nacional.

Para um texto incrível falando sobre os tipos de machismos da última semana, sugiro este, da Renata Correa.

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