Você já parou para pensar em como a cultura do estupro pode estar presente em um filme, mesmo quando não há nenhuma cena de estupro?

Pense nos filmes de ação. Quantas vezes o protagonista do filme é um homem? No mínimo, em 95% das obras. E nestes filmes, quantas vezes você não viu uma cena na qual o herói tem de salvar seu interesse romântico? Na grande maioria das vezes, a cena apresenta uma mulher com físico de supermodelo, que usa roupas justas ou está seminua, em grande perigo, presa por uma corda ou por algum objeto que a imobilize fisicamente. Seja a Princesa Lea em “Star Wars: O Retorno do Jedi” ou James Bond salvando a Bond Girl no último 007, tal cena é uma constante em filmes de ação.

Mas, pensem uma vez mais: uma garota, seminua, imobilizada fisicamente, em grande perigo, sendo ameaçada por um homem. Ao que isto te remete?

Pois é, os códigos do estupro vão muito além da consumação do ato violento em tela. Muitas vezes, há um flerte com os signos do estupro, já internalizados e conhecidos pelo espectador. É o que chamaremos de estupro invisível; aquele que se esconde no subtexto, na leitura da imagem. E que dependem, claro, do imaginário comum do espectador para ser decodificado.

Diversas vezes, estamos tão habituados aos códigos de um gênero, que os tomamos como naturais. Porém, há de se lembrar que filmes são produtos culturais, que dependem do imaginário comum de sua audiência para existirem. Há, assim, um pacto entre espectador e obra, e é a partir dos elementos culturais comuns àqueles que assistem o filme, que este será compreendido. E, numa cultura que naturaliza o estupro, este fará parte do imaginário popular.

Pensem, ainda, nos filmes de terror. Quantas vezes as mortes de personagens femininas não são associadas à mostrar na tela o corpo nu da mulher, desde filmes trash como “Piranha 3D”, até obras consagradas como o suspense “Psicose”?

No gênero terror, é conhecida a figura da final girl (a “sobrevivente final”) . No cinema mainstream, ela é bela, jovem, quase sempre pura, virgem e ingênua. Afinal, qualquer espectador entende que uma moça dessas está sempre em perigo eminente. O mal mora na esquina e pode pegá-la a qualquer momento.

Ou seja: o terror, enquanto gênero, parte do pressuposto que a jovem mulher é, por si só, uma figura frágil e em perigo. Se apropria, assim, dos signos presentes em nossa sociedade – a constante ameaça do estupro que ronda as mulheres – como ponto de partida para sua narrativa.

De acordo com Dahlia Grossman-Heinze, “O que filmes de terror com uma final girl parecem ter em comum é a ameaça da violência sexual. O assassino não irá apenas assassinar a final girl – a ameaça do estupro está lá, também.” (livre tradução)

É importante pensar que um filme de terror funciona apenas se a atenção do espectador é captada. Mais do que isto: se ele gerar algum grau de identificação com a vítima, isso fará com que o espectador torça pela heroína, desejando assim vê-la sã e salva.

Então, porque o arquétipo da final girl é o de uma garota, adolescente, sempre angelical e inocente? Em nossa cultura do estupro, na qual a culpabilização da vítima é tão comum, a final girl é a donzela em perigo.

É com ela que o espectador se solidariza: ela não carrega nenhuma culpa. Ela é a vítima. Ela é inocente. Ela poderia ser sua filha, sua sobrinha, alguém com quem você se importa. Você quer que ela sobreviva. Ela “não fez nada para merecer isso”. (Veja, aí, a existência do discurso oposto: a maioria das mulheres pede para ser estuprada. A final girl, não).

A final girl é, via de regra, representada por uma atriz loira, jovem, esguia, ocidental e branca. Uma atriz que poderia, portanto, representar uma tanto uma donzela em perigo, quanto uma princesa da Disney. Alguém de valor. Com quem nos importamos.

Em uma sociedade que possui não apenas uma cultura de estupro, mas também, uma cultura machista e racista, a final girl reflete, infelizmente, os valores das classes dominantes. Nos importaríamos tanto com a final girl se ela fosse negra, asiática, moradora da periferia, lésbica, velha ou gorda? Nos excitaríamos tanto vê-la correndo perigo, e torceríamos para que ela sobrevivesse à esta injustiça?

Um filme é um produto cultural. Ou seja, há de ser visto como produto histórico, que carrega consigo os signos de seu tempo e espaço, refletindo, tantas vezes, os preconceitos, valores arraigados e discursos encontrados em cada tempo e espaço.

Mas um filme é, ao mesmo passo, portador de discurso. E este, nunca é neutro. Ou seja: um filme não deve ser julgado por reconhecer que a cultura do estupro existe, seja abordando isto em sua narrativa de forma explícita, seja dialogando com seus signos A questão é: como cada obra irá mostrar a cultura do estupro em tela e que discurso irá reproduzir.

Será um discurso, como na grande maioria dos filmes de ação, que perpetuam e naturalizam a cultura do estupro? Ou será um discurso libertador, que irá problematizar e refutar a banalização do estupro e a exploração do corpo feminino, como no caso do último Mad Max?

Mesmo a figura da final girl foi debatida com profundidade em análises feministas nas últimas décadas. É possível encontrar filmes de terror nos quais as personagens femininas se tornaram mais complexas, menos ingênuas e agentes ativas, e que subvertem o arquétipo da donzela em perigo. Mas, para cada filme de terror que problematiza a cultura do estupro (destaque para o estadunidense “It Follows”, ou para o iraniano “A Girl Walks Home at Night”), há uma dezena de outros que a naturalizam.

A valorização da cultura do estupro está presente não apenas em filmes de ação ou de terror, mas também, em obras bastante populares, e consideradas “leves”, próprias para serem assistidas na sessão da tarde por qualquer público alvo.

Vale citar a franquia de comédia “American Pie”, cujo plot central gira em torno de adolescentes homens heterossexuais, que planejam uma festa com o intuito de embebedar garotas e conseguir, assim, transar. Aquele que não conseguir perder a virgindade, estabelece-se, será um perdedor. (Premissa que lembra a de outros filmes voltados para o público adolescente, como Superbad).

Ou seja: para os adolescentes homens, transar à qualquer custo é válido. É a única forma de pertencimento. Mesmo que, para isso, a garota esteja bêbada e inconsciente. Mesmo que seja, portanto, estupro.

Lembrem-se de “Sixteen Candles”, clássico filme adolescente dos anos 80, do renomado diretor John Hughes. Há uma cena em que Jake Ryan, o interesse amoroso da protagonista, entrega seu carro – e sua namorada embriagada e desmaiada no banco da frente – para o personagem The Geek. Jake, antes de entregar o “presente”, diz a mensagem: “Divirta-se”.

Como espectadores, temos de estar atentos. Um filme nunca é neutro. E o estupro, mesmo quando invisível na tela, ainda assim existe.

Todo filme produz um discurso. Quantas vezes, este não serve para reforçar e naturalizar a cultura do estupro?

 

Bibliografia consultada:

Carol Clover, “Men, Women and Chainsaws: Gender in the Modern Horror Film”

Tanya Horeck, “Public Rape: Representing Violation in Fiction and Film”

Neutral Magazine – http://2013.neutralmagazine.com/article/the-final-girl-gender-in-horror/

Shameless Mag – http://shamelessmag.com/blog/entry/the-reflection-of-rape-culture-in-the-media

Bitch Media – https://bitchmedia.org/post/digging-into-horrors-final-girl-trope-feminism-hemlock-grove

%d blogueiros gostam disto: