Hoje o Brasil joga mais um jogo da copa, e é de se esperar que, mesmo que o Brasil perca, a Vila Madalena em São Paulo vai estar lotada de gente. Gringos e brasileiros, todos juntos festejando, comemorando ou chorando a copa. E essa cena vai se repetir em tantos outros pontos de encontro hypadinhos ao redor do Brasil. E isso é legal, e divertido e demais.

MAS, como sempre, alguns carinhas sempre aparecem pra jogar o holofote na parte zoada e absurda dessas comemorações. A parte triste é que eles nem percebem o que estão fazendo. Muito pelo contrário – acham que é um arraso.

Acordei ontem de manhã e, ao abrir o Facebook (sim, eu sei. Péssimo hábito. Estou tentando parar, tenham paciência…), dei de cara com a reportagem do UOL Esportes sobre essas festas do tipo micaretas na Vila Madalena. Até aí, ok. É Copa, é futebol, é esporte e é comemoração da Copa. Até aí, lindo. Mas o problema é que, desde a primeira linha, o texto parte do princípio de que as mulheres não participam da festa, elas estão lá, não como parte integrante da festividade, e sim como objetos a serem admirados e desejados.

Um

três

Eu sei que quando se usa o “Brasileiro”, está-se querendo falar de ambos os sexos, mas no caso deste texto fica claro que esse não é o pensamento dos escritores (o texto é creditado a sete autorestodos homens). Ao separar mulheres bonitas de Os brasileiros e de os gringos, os autores do texto automaticamente tornam as mulheres decoração, e não parte da festa. Fala-se de mulheres em quatro momentos. Em pelo menos três momentos a mulher é tratada como objeto de cobiça sexual, um adorno para a festa da qual ela não é parte. Uma única vez a entrevistada não parece estar sendo julgada ou classificada como objeto.  Em todas as vezes, a representação feminina ajuda a aumentar o já tão grande estereótipo de que a mulher brasileira é “fácil”. E, claro, há o “equivoco” de dizer que forçar o beijo em alguém é “tática de conquista”, e não assédio.

quatro

Quando você está numa micareta e um homem parte para tentar te beijar e você está a fim, manda ver. O corpo é seu, a boca é sua e você tem o direito de se dar prazer. Mas este homem que está puxando meninas para um beijo forçado está também as assediando de uma maneira invasiva e errada. É assim tão difícil conversar com a garota? Perguntar se ela está a fim? E, caso ela diga não, responder um simples “beleza”? A tal “técnica de conquista” nada mais é do que uma imposição do homem (que, de acordo com o próprio texto é do tipo marombado, ou seja, forte e intimidador) sobre o seu direto de querer ou não beijá-lo. É uma tentativa – mesmo que inconsciente – de impor a vontade dele na mulher. Forçar alguém a te beijar não é conquista ou flerte, colega, é assédio sexual.

cinco

O texto ainda deixa claro que a tática não funcionava com as mulheres estrangeiras porque os brasileiros tinham problema de comunicação. Amigo, quando um cara te puxa pra perto e tenta te beijar, ele pode estar falando javanês, você sabe muito bem o que ele está querendo. Já parou pra pensar que, sei lá, vou jogar uma ideia meio louca aí, a garota não queria? Eu sei, eu sei. Parece absurdo que uma mulher não queira ser beijada por um homem – independente de quão fortão e charmoso ele seja. Afinal, que mulher não sonha em ser agarrada na rua por um estranho bêbado? Pois é.

Pensando nas estrangeiras, vamos para aquele ponto tão importante também em que, um texto como este, ajuda a propagar a imagem de que toda mulher brasileira é fácil. Veja bem, esse é um estereótipo muito, muito ruim. Vou dividir a minha experiência pessoal: num evento profissional que fui durante o ano em que morei em Vancouver, roteiristas e produtores se encontravam para conversar sobre possíveis projetos de televisão e cinema. Uma chance muito interessante para quem estava começando, e para quem procurava novas ideias. Enquanto esperava uma oportunidade para conversar com o único produtor que realmente me interessava ali (ele representava uma empresa que fazia MOWs de ficção científica), fui abordada por um Diretor. O papo começou com os nossos projetos mas, notando meu sotaque, ele logo perguntou de onde eu era. Pronto. Ao escutar que eu era brasileira, a conversa foi ladeira a baixo. O assunto mudou para Rio, carnaval, mulatas, biquínis, liberalidade do corpo, meus biquínis…

Mas por que eu não poderia simplesmente virar as costas e sair? Este é um ambiente profissional, este cara é um diretor que trabalha no meio, eu sou uma roteirista iniciante. Caso eu decida agir do modo que eu realmente gostaria, eu poderia estar, alí mesmo, perdendo oportunidades. As pessoas comentam. Uma amiga da minha professora recebeu a foto de um pênis logo antes de uma reunião com um produtor – dono do pênis em questão. Ela nunca apareceu para o encontro, mas também nunca denunciou o imbecil. Constrangimento é uma arma forte e perigosa, quem já passou por ela sabe o quanto pesa. E tanto lá fora, como aqui dentro, é uma tática utilizada ad-infinitum quando um homem quer sobrepor a sua vontade à liberdade de escolha da mulher.

Veja bem, você tem o direito de ser quão fácil você quiser. E eu te apoio completametne nisso! Vai lá, beija quem você quiser beijar, dorme com quem você quiser. O corpo é seu e você tem sim o direito de sentir e dar prazer. Mas isso deve vir de você, não de um imbecil que acha que tem o direito de partir pra cima de ti só por que você é brasileira ou, no caso das gringas da Vila Madalena, só porque você e mulher.

Sabe por que isso aconteceu? Porque assim como eu, milhares de mulheres brasileiras passam pelo mesmo problema, porque o estereótipo que este texto e os tantos outros que circulam pela internet com as “musas da copa” ajudam a propagar. E isso, amigo, é uma merda. Quando vai se desenhar uma mulata brasileira, ela têm peito e bunda proeminentes, mas quando a propaganda é com o Hulk, da seleção, o principal “atributo” físico dele é ignorado, e ele é desenhado com um peitoral gigante, e a bunda mínima. Não estou dizendo “vamos sexualizar todo mundo e é isso aê”. Estou afirmando que há sim uma disparidade de como a sociedade vê uma mulher mulata brasileira e um homem mulato brasileiro. Uma visão que se espalha pelo mundo e que atinge mulheres, mulatas ou não, mesmo dentro do próprio país.

Caso fossem retiradas as partes em que se fala especificamente sobre mulheres, a matéria talvez passasse como uma notícia normal, falando sobre a festança e a integração de culturas diferentes. Sem a objetificação da figura feminina na festa, pareceria inclusive que elas fazem parte dela. Mas não. Ao tornar a mulher um objeto a ser conquistado, o texto retira a figura feminina da integração entre culturas e a torna apenas parte da decoração sexual a ser aproveitada pelo turista e pelo brasileiro homem.

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