No começo do ano eu tive a oportunidade de assistir uma palestra da showrunner de Jessica Jones, Melissa Rosenberg (eu também dei uma de fangirl e bati a pior foto possível). A palestra foi, de muitas maneiras, uma ótima aula sobre o processo de criação e de estruturação da série, e Rosenberg comentou durante a conversa que ela estruturou a primeira temporada para que, caso a série não fosse renovada, ela funcionasse dentro de si mesma.

Em entrevista à Esquire, a roteirista falou que Jessica já estava desestruturada antes mesmo de Kilgrave aparecer, e que o plano para a próxima temporada é ver para onde ela vai daí.

Eu aprendi ao trabalhar em Dexter que você pode avançar o arco de um personagem, mas você nunca quer curá-lo. Com Dexter, no momento em que ele se desse conta de que ele era mau o show acabava. Ele não é mais um psicopata. O equivalente disso para Jessica seria uma recuperação de todo o dano que foi feito à ela. As pessoas não simplesmente se curam, você não passa por tudo aqui e depois dis ‘Oh, ele foi preso, está na cadeia, eu estou Ok agora’. Aquele trauma é uma grande parte de quem ela é agora.

O que eu mais gosto na declaração de Rosenberg é saber que elas estão pensando em como manter o tema da recuperação do trauma na série. Tantas vezes nós vemos personagens, femininas ou masculinas, passar por grandes tragédias mas que são esquecidas depois de poucos episódios. Na temporada passada de Arrow nós vimos Felicity sentar numa cadeira de rodas por poucos episódios, sem que a extensão real do efeito de uma pessoa se tornar paraplégica fosse discutida tanto no psicológico e quanto no arco da personagem.

Uma das nossas grandes questões quando séries e filmes abordam o tema do estupro é exatamente que elas se recusam a tratar o assunto com a seriedade necessária, nem dão o desenvolvimento e o espaço que os arcos dessas personagens precisariam para que o assunto fosse de fato bem trabalhado. Ver que Jessica Jones, uma série que em sua primeira temporada já tratou tão bem do assunto, e de outros assuntos que permeiam a violência contra a mulher, continua se preocupando em construir uma história que abrace todo a dor de carregar esse trauma é uma ótima notícia.

Não me entendam mal, eu sou a rainha do final feliz. Mas no caso de Jessica Jones, o que torna a personagem tão empática, é que ela parece uma mulher real, com os traumas e os medos de uma mulher real. Que está se segurando com o pouco de coragem que ela consegue levantar todos os dias, mesmo que essa coragem seja alimentada por garrafas de whisky barato. Jessica não é a personagem que acorda na segunda temporada feliz e completamente curada, ela é a personagem que faz a gente entender o quão difícil, mesmo para uma super-heroína, é viver com um trauma.

A nova temporada de Jessica Jones ainda não tem data para estrear, mas está prevista para o final de 2017, ou início de 2018. Luke Cage, personagem que foi apresentado na primeira temporada de Jessica Jones, ganhou sua própria série que chega ao Netflix no dia 30 de Setembro.

 

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