Depois de uma aventura de oito episódios, a primeira temporada de Deuses Americanos chega ao seu season finale. Muita coisa boa aconteceu e outras nem tanto. Normalmente esperamos um conflito maior no último episódio, ou uma revelação importante e tivemos tudo isso, só que algumas delas talvez não exatamente do jeito que nós imaginávamos.

Alguns personagens que já tinham aparecido voltam, como Anansi e Bilquis, e outros novos aparecem pela primeira vez para marcar presença, como Ostara. Wednesday e Shadow voltam a ser o foco, mas também temos espaço para a dupla Laura e Mad Sweeney.

Apesar de ter gostado desse final e da temporada em si, eu acredito que faltaram algumas coisas que eram importantes. Vou começar falando do episódio, como sempre, e no final do texto vou comentar um pouco da temporada como um todo e o que eu espero para a próxima.

O texto terá spoiler do episódio.

American Gods Season 1 2017

Dois personagens que apareceram pouco e com certeza mereciam mais espaço de tela começam a primeira parte do episódio. Mr. Nancy, ou Anansi, como você preferir, está fazendo algumas roupas para Wednesday e Shadow, enquanto conta a história de Bilquis, um Coming to America só que vindo de outra pessoa.

Desde os primeiros episódios eu estou aqui falando que quero ver mais da personagem, que não quero que ela seja reduzida a nenhum clichê. Mr. Nancy ouviu minhas preces e fala sobre como Bilquis saiu da sua posição poderosa para uma deusa nos Estados Unidos que usa aplicativos como o Tinder para continuar tendo forças.

Normalmente, essas histórias sobre os deuses são de Mr. Ibis para o público, mas no caso é Anansi que conta para Wednesday a história. Assim como os contos de Mr. Ibis tem um propósito: ensinar ao público algumas “regras” do universo de Deuses Americanos, além de apresentar personagens, Anansi está tentando passar uma mensagem para Wednesday.

Bilquis era uma deusa poderosa, nós já sabíamos que ela conseguia sua força tendo relações sexuais com as pessoas que a veneravam, mas ela era muito mais forte antigamente do que agora. Os anos foram passando e Bilquis foi achando formas diferentes de continuar ganhando poder. De acordo com Anansi, os homens temem o poder de Bilquis e depois de um ataque, ela é forçada a ir para os Estados Unidos. Dá para interpretar esse “medo” que os homens tem de Bilquis de várias formas: a sociedade odiando mulheres que expressam sua sexualidade, a sociedade odiando pessoas LGBT+ (já que ela foi mostrada com homens e mulheres) ou também o tabu que a sociedade tem com assuntos de sexualidade em geral.

Nos Estados Unidos, as coisas pioram para Bilquis. Ela enfrenta uma época em que as pessoas não a veneram e precisa encarar enquanto seu templo é derrubado em sua terra natal. Enquanto está na rua, Technical Boy a encontra e oferece uma forma de se adaptar, assim como os deuses novos fizeram com Vulcan. Bilquis começa a usar um aplicativo parecido com o Tinder, que é como a conhecemos no começo da temporada. No livro, não é bem isso que acontece, mas a série parece que vai dar um espaço maior para Bilquis na próxima temporada, o que eu sinceramente espero muito. Eu já queria isso nessa temporada. Não vimos deuses antigos e deuses novos interagindo de forma amigável, nós ouvimos o relato de Vulcan, mas ver mesmo só vimos agora com Bilquis. Teria sido interessante ver mais disso ao longo dessa temporada.

RANSOM S1 Ep.107

Anansi diz que Wednesday não pode julgar nenhum dos deuses antigos por terem cedido aos novos e o critica por ter matado Vulcan. Shadow também não parece estar muito feliz. Aqui tem uma cena interessante em que Wednesday explica a diferença entre confusão e raiva. Isso vai ser importante para um comentário que farei mais no final do texto.

Shadow conhece Ostara, a deusa da primavera, que está fazendo uma festa de páscoa. Aparentemente é assim que Ostara, mesmo sendo uma deusa antiga, continua sendo venerada e forte. Finalmente Shadow se toca de uma vez por todas que está lidando com divindades, ele encara todas as versões de Jesus e fica bem confuso, o que não é pra menos. Eu achei bem legal que Jesus foi interpretado de várias formas aqui, como se existissem várias versões.

Durante a festa, Wednesday diz, na frente de todo mundo, que a páscoa não é uma celebração para Ostara, a primavera, e sim um feriado católico. Ou seja, as pessoas que veneravam a páscoa não se importavam com Ostara, e sim com Jesus. Obviamente a deusa fica brava com isso, afinal de contas ela sabe perfeitamente desse fato, mas ela também se adaptou, então não adianta nada ofender as inúmeras versões de Jesus que estão em sua casa. Wednesday ganha o prêmio cara de pau do ano ao mentir para Ostara que Vulcan foi morto, dando a entender que por mais que alguns deuses antigos tenham se adaptado, eles podem ser descartados pelos deuses novos. Ele sugere que Ostara acabe com as plantações, assim os humanos serão forçados a rezar para a primavera de novo.

Enquanto isso, Laura chega na festa e o corpo dela está se deteriorando cada vez mais. Mad Sweeney acredita que se alguém pode trazer Laura de volta, esse alguém é Ostara. A deusa vai examinar Laura e se toca que foi o próprio Mad Sweeney que matou a matou a mando de Wednesday. Como Laura tinha morrido pela vontade de um deus, Ostara não podia interferir e mudar aquela situação. Laura fica revoltada e força Mad Sweeney a contar quem foi.

Como sempre, Laura é a personagem que faz as perguntas certas. Ela não entende porque ela foi a escolhida e, quando entende que tem a ver com o Shadow, quer saber o que Wednesday tanto quer com o marido, que são exatamente as perguntas chaves da temporada. Inclusive, aqui descobrimos que Wednesday não só foi responsável pela morte de Laura, mas também foi o culpado pelo assalto ao banco ter dado errado. Wednesday calculou e manipulou a situação inteira para conseguir recrutar Shadow. Enquanto isso, Mídia chega na festa, aparentemente foi ela que fez o acordo com Ostara sobre a sua adaptação, o que é muito conveniente, já que a mídia é uma das grandes responsáveis por nós gastarmos tanto durante os feriados, inclusive na páscoa. Quantas propagandas de chocolate não vemos nessa época?

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Inevitavelmente, acontece outro embate entre deuses antigos e novos. Até Technical Boy e Mr. World, que não estavam na festa, aparecem. Toda interação é muito legal, os diálogos são interessantes e as atuações incríveis como sempre, mas nós já vimos algo muito parecido. Esse embate de ideias já tinha acontecido no quinto episódio, muito do que eles falaram agora era informação repetida. A única pessoa nova na soma dessa vez é Ostara, que nem participa tanto da discussão em si.

Wednesday mata alguns dos homens de Mr. World e finalmente se revela como Odin para Shadow. A cena em si da revelação é muito legal e eu não sei mais como expressar o meu amor pelas atuações dessa série. Quando tudo vai para o mediano, são os atores que seguram. O que eu fico me perguntando é o quão impactante, e portanto necessária, essa cena foi. Eu já sabia quem Wednesday era por causa do livro, mas todo mundo que eu conheço que não leu já sabia que Wednesday era Odin, principalmente depois do quinte episódio. Eu gosto muito da revelação no livro e essa cena é visualmente bem impactante, mas talvez o público não tenha sentido tanto. Quem tinha que ter sentido mesmo era o Shadow, mas eu já chego nisso.

Ostara também não ficou para trás e resolveu fazer exatamente o que Wednesday sugeriu no começo do episódio: Ela acaba com várias plantações dos Estados Unidos. A cena é impactante, tanto que até os deuses novos ficam sem palavras. E não é para menos, plantações destruídas afetam diretamente em como as pessoas vão se alimentar. Com isso, a guerra é declarada, com Ostara oficialmente do lado de Wednesday.

Depois de ver tudo isso, Shadow diz que acredita. Ele estava todo confuso antes por causa dos vários Jesus, mas agora ele acredita. Nesse momento, Laura aparece e diz que precisa conversar com Shadow. Para terminar o episódio, vemos Bilquis indo para House of the Rock, que quem já leu o livro imagina o que está por vir, mas quem só está assistindo a série não sabe bem o que é ainda.

Particularmente, eu gostei bastante do episódio, mas tive alguns problemas. Primeiro que tudo aquilo que eu temia que o Shadow virasse, ele acabou virando. O personagem sempre chegou muito perto de ser um protagonista passivo. Sim, ele tomou a decisão de ajudar Wednesday, mas muito do que aconteceu depois com ele não foram escolhas dele, mas sim ele sendo jogado de uma situação para a outra. Especialmente nesses três últimos episódios, Shadow parecia mais um coadjuvante do que qualquer outra coisa. E ele ficou tão sem emoções quanto o Shadow do livro, aquele que eu vivo reclamando. Uma deusa acabou de destruir plantações que vão afetar pessoas no país inteiro! Faz alguma coisa! Essa inclusive era uma excelente oportunidade para voltar para a questão do começo do episódio sobre confundir confusão e raiva.

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Outra coisa que eu não gostei nesse episódio é que não parecia um season finale. Sim, tivemos um confronto, uma revelação, momentos marcantes e tudo que esperamos de um episódio desses, mas em certas partes eu sentia que a beleza estética era mais importante que o que realmente estava acontecendo. O confronto que vimos nós já tínhamos visto no episódio cinco. E por que o grande gancho da temporada virou a possível conversa entre Laura e Shadow? Isso é de fato mais importante que a briga entre deuses? Mais importante do que Ostara acabar com plantações inteiras?

Eu gostei do episódio, achei divertido, com partes muito legais e mal espero pela segunda temporada, mas ele devia ser mais impactante do que foi, ele teria sido um excelente penúltimo episódio, inclusive. Come to Jesus estabeleceu coisas para um próximo episódio, não uma próxima temporada, então quando acabou parte de mim ficou: “Mas e aí?”.

Em geral, eu gostei bastante dessa primeira temporada de Deuses Americanos. As atuações é uma das melhores características, aqueles atores foram feitos para esses personagens, até mesmo Shadow que, como protagonista, ficou apagado em vários momentos. Wednesday está fantástico, a relação de Mad Sweeney com Laura é ótima, todos os deuses novos de fato parecem relevantes… Nesse ponto a série acerta muito. A narrativa em si dá umas enroladas, mas há momentos muito bem feitos, principalmente no quarto e no sétimo episódio. Deuses Americanos levanta questionamentos e assuntos muito interessantes de serem pensados a fundo e tem um potencial muito grande de ficar ainda melhor na segunda temporada. E obviamente o visual também não deixa a desejar.

Mas talvez o maior problema da série, que também é um problema no livro, é como Shadow é usado na história. Sim, em vários momentos a história em si fica muito confusa e o passo não ajuda, as coisas podiam ser mais rápidas, mas se Shadow tivesse sido posicionado melhor, nós talvez não sentíssemos tanto isso. Não acho que é um problema do ator, inclusive acho que assim como o resto do elenco, Ricky Whittle mandou muito bem, mas o problema parece muito mais da direção, de como o personagem foi construído. Ele tem os momentos que reage mais, o que eu acho ótimo, mas certas horas Shadow só passa pelas coisas.

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Uma coisa interessante desse último episódio é que as coisas não ficaram preto no branco. No começo nós simpatizamos muito mais com Wednesday e os deuses antigos, mas depois do sexto episódio, mas principalmente no último, nós vemos que os deuses antigos podem ser terríveis também. Wednesday matou Vulcan, mandou Laura ser assassinada, armou para Shadow ser preso e incentivou Ostara a destruir plantações inteiras. Wednesday está disposto a causar uma guerra para voltar a ter poder. Apesar de eu adorar o personagem, ele não é uma pessoa ótima. Em certo momento do último episódio, eu praticamente estava torcendo pelos deuses novos e para que Laura chegasse cortando o barato dos deuses antigos.

Eu acho bem legal quando alguma história te faz questionar quem é realmente bom e quem é realmente mau, ou nem define em que lado cada um está. Porém, no ponto em que a série parou, parece que a história é sobre uma mulher que foi morta por um deus e quer tentar voltar a viver, enquanto isso seu marido está sendo enganado por esse mesmo deus. É quase como se a história fosse terminar num embate entre Laura e Wednesday, sendo que o protagonista é o Shadow. Por mais que isso seja legal para dar destaque aos coadjuvantes, quem tinha que ter esse espaço e impacto maior era o Shadow.

Deuses Americanos mandou bem nessa primeira temporada, mas ainda há pontos em que pode melhorar, principalmente em amarrar certos pontos melhor e trabalhar mais o protagonista, coisas que podem impedir fãs novos de assistirem. Eu estou bem ansiosa para ver a próxima temporada, ver o que vai acontecer com os personagens, principalmente a Bilquis e a Laura, e o que vai acontecer com a guerra. Espero que volte logo e principalmente que Shadow volte a ser o protagonista da história.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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