Há alguns dias atrás, foi anunciado que a Netflix produziria 12 episódios novos da série britânica Black Mirror. A série foi criada por Charlie Brooker e possui apenas sete episódios que, sem relação uns com os outros, falam sobre a relação dos seres humanos com a tecnologia.

É uma notícia incrível, a Netflix vem mostrando um trabalho ótimo na produção de séries, como por exemplo Orange is the New Black, Sense8, Daredevil, etc. A única preocupação que eu tenho, que é pequena, é que com o aumento do número de episódios, a série perca uma das suas grandes características, que são os episódios independentes, e adote uma narrativa linear. De resto, as expectativas são as melhores.

Conheci Black Mirror ano passado e desde então digo que é a melhor série que já vi na vida. Infelizmente, a maioria das pessoas com quem comento não conhece a série ou, se já ouviu falar, nunca assistiu nenhum episódio. Com esse anúncio da Netflix, a série vai ganhar um alcance maior, mas acho que vale a pena, desde agora, aumentar a hype geral e dar alguns motivos para todo mundo já começar a assistir a série.

A postagem não possui spoilers, então pode ler sem medo.

  • Episódios independentes

Para muitas pessoas isso pode ser um ponto negativo, afinal de contas o roteiro não poderia usar o gancho de um episódio para o outro afim de manter a curiosidade dos telespectadores. Porém, nesse caso, leio como um ponto positivo. Com um episódio para tratar de cada tema, o roteiro se foca naquela mensagem específica que quer passar e em questão de uma hora consegue concluir o que pretende mostrar. Cada episódio diferente aumenta a variedade de assuntos abordados, nunca sabemos o que esperar, nem mesmo os atores são os mesmos, então é sempre uma surpresa (boa).

Além disso, os episódios se passam em tempos diferentes, enquanto um episódio poderia acontecer amanhã, outros obviamente estão acontecendo em algum ponto do futuro. Independente do tempo em que se passam, todas as questões e tecnologias parecem possíveis.

  • Roteiro

Não é fácil escrever um roteiro de uma hora com uma história que não vai ter continuação. O que pode ser uma das vantagens das séries é exatamente ter várias horas para concluir uma história, enquanto o filme só teria duas ou três. Como Black Mirror se propõe a fazer episódios independentes, eles precisam ser concluídos nesse espaço de tempo, o que poderia resultar em uma trama muito rasa ou até um roteiro corrido. Porém os roteiristas mandam muito bem e conseguem sempre escrever uma história que te surpreende e deixa todos vidrados do começo ao fim. No final não parece corrido ou raso, parece que foi exatamente o tempo ideal e com as escolhas perfeitas de cena para fazer o episódio funcionar.

O ritmo não é o único mérito do roteiro, as reviravoltas surpreendem a cada episódio, como “White Christmas”, “The Entire Story of You” e “Fifteen Million Merits” que estão entre os que mais surpreenderam a audiência, mas todos eles têm seus destaques, não consigo pontuar um episódio que diga “Ah não, esse não gostei”.

  • Mensagens que te fazem pensar

Uma das coisas que eu mais gosto em uma história de ficção é quando ela acaba e nós continuamos pensando sobre o que acabamos de ver. Cada episódio de Black Mirror gera uma reflexão, seja dos episódios mais chocantes como “The National Anthem” ou “White Bear”, como os episódios mais melancólicos como “Be Right Back”.

São histórias que, apesar de terem uma conclusão e não deixarem o final em aberto, possuem mensagens que ficam livres para interpretação de quem está assistindo. O roteiro não te dá algo como certo ou errado, herói e vilão, deixando que o próprio telespectador decida o que vai concluir daquilo.

  • Abordagem sobre a tecnologia

O que sempre acaba preocupando as pessoas em uma obra que critique a tecnologia é que esta seja uma crítica conservadora. Existem muitas pessoas que só olham os pontos negativos e ignoram os pontos positivos que a tecnologia trouxe para as pessoas. Black Mirror poderia muito bem ser uma série que mostra que a tecnologia perverte o ser humano, passando a mensagem que é quando nos atemos aos seres humanos que somos mais “felizes”.

Isso não acontece aqui, Black Mirror mostra a tecnologia como um instrumento que pode ser usado para o bem ou para o mal, a partir disso algumas pessoas abusam desse instrumento e acabam tendo resultados não muito bons. O que faz a série ser interessante é exatamente ver os rumos que uma sociedade ou um grupo pequeno de pessoas pode tomar a partir de uma tecnologia que proporciona coisas que não podíamos fazer antes.

  • É sobre nós, seres humanos

Apesar de definirmos a série como “uma série sobre os efeitos da tecnologia”, Black Mirror fala sobre seres humanos, nossos melhores e piores sentimentos e como isso, unido a uma tecnologia avançada, pode afetar as nossas vidas. Os episódios abordam ciúmes, amor, sobrevivência, exagero, imagem pessoal… Tudo isso são características humanas, máquinas não amam e não sentem ciúmes, essas são características dos seres humanos. Agora, quais são as consequências disso quando, junto a esses sentimentos, que não são pequenos, colocamos um instrumento poderoso na mão de certas pessoas?

Acima de toda a reflexão sobre como a tecnologia pode alterar a estrutura da sociedade que conhecemos, acredito que as maiores reflexões são sobre o que nós mesmos somos capazes de fazer se tivermos oportunidade. Será que não perdemos o limite quando compartilhamos muito alguma coisa? Será que uma punição tecnológica é exagerada em relação a certos crimes? Será que endeusamos a tecnologia ao ponto de ser danoso? Dê um instrumento extremamente útil para tipos de pessoas diferentes e veja o que acontece. São as máquinas que corrompem o ser humano com suas possibilidades ou os humanos que usam as máquinas para coisas ruins?

  • Não vamos ignorar os aspectos técnicos

Apesar de toda a escrita por trás ser o diferencial da série, não dá pra ignorar a produção incrível que Black Mirror tem. Os atores mandam muito bem, sempre fazendo nos apegarmos aos seus personagens em um curto período de tempo.

Visualmente, a série também funciona muito bem. A arte e a fotografia sempre dialogam com o que está sendo mostrado no episódio e muitas vezes as cores na verdade são um contraste ao que estamos vendo. Muitas vezes vemos uma obra audiovisual que dá pra perceber que a arte e o roteiro não tiveram um diálogo muito bom, mas Black Mirror casa todos os aspectos e faz episódios que te marcam de todas as formas.

Além disso, os efeitos das tecnologias mais avançadas não parecem toscos em momento nenhum, eles encaixam com o que está acontecendo, não só do ponto de vista do roteiro, mas do ponto de vista visual mesmo. Nós acreditamos que certas tecnologias mostradas podem realmente acontecer e serão visualmente parecidas com o que estamos vendo.

Então tá esperando o que? Corre pra assistir!

Originalmente postado em Ideias em Roxo

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