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Adolescência é um tema abordado à exaustão pelo cinema e pela literatura. São normalmente os mesmos temas, aqueles tão pertinentes aos anos em que ainda estamos nos acostumando com o corpo no qual estamos presos, com a identidade que ainda estamos tentando entender e com a pressão de descobrirmos quem nós realmente somos. Parece redundante, mas não é. Quando somos adolescentes – mesmo na idade adulta – estamos constantemente substituindo quem nós somos por quem nós “deveríamos” ser. E As Vantagens de Ser Invisível é um pouco sobre isso.

Charlie, o protagonista e narrador da história, conta sua história durante o primeiro ano de colegial através de cartas endereçadas a um desconhecido de quem ele escutou falar. Esse desconhecido pode muito bem ser você, e é interessante ler um texto bem pessoal, de um adolescente tão transparente e honesto. Em nenhum momento você sente que está invadindo a intimidade de alguém, mas sim que essas cartas realmente poderiam ser para você. É pessoal, íntimo e cheio de momentos de vergonha alheia. Charlie não te poupa de nenhum dos detalhes constrangedores pelos quais passa, dando ao leitor a experiência de realmente estar lá.

As Vantagens de Ser Invisível foi transformado em filme pelo próprio escritor, Stephen Chbosky, e é incrível a sua capacidade de conseguir traduzir para as telas o sentimento de honestidade, intimidade e delicadeza que o livro traz. Acho até que em alguns momentos o filme é mais inclusivo com o espectador do que o livro com o leitor. Eu assisti ao filme num final de tarde, sozinha num cinema pé de chinelo em Vancouver, durante um ano que eu estava bastante sozinha. Foi interessante acompanhar a reação do grupo de adolescentes que sentou-se na minha frente durante a exibição. Diferente deles, eu não tinha lido o livro ainda, então quando a revelação sobre a Aunt Hellen veio à tona, fui pega de surpresa. Não de uma maneira que deixasse a sensação de que aquilo veio do nada, mas de uma maneira que me fez entender ainda mais o personagem, os seus sofrimentos, os seus sentimentos e o modo como ele se comportava perante as outras pessoas. Ao ler o livro, eu já sabia sobre essa revelação, então pude desde o começo perceber os momentos e situações que tornariam a revelação tão forte.

E é isso que é incrível sobre o livro. Ou uma das coisas que faz do livro incrível. A delicadeza com que ele trata de um assunto tão pesado e complicado como abuso infantil. Charlie conta toda a sua história através de cartas talvez para tentar entender a si mesmo, para tentar não se sentir tão sozinho durante o ano escolar, mas só consegue se lembrar do que aconteceu quando alcança o que deveria ser o ápice do seu ano. É profundamente triste, mas Charlie tenta se manter positivo. E essa é a sua atitude para tudo, inclusive quando ele tenta entender os motivos de sua Tia ter feito o que ela fez – e a conclusão a que ele chega é delicada, bonita e pessoal.

Outro aspecto muito legal do livro é que ele nos dá uma visão um pouco diferente do colegial, já que o ponto de vista é de um garoto que acaba de entrar nesse mundo assustador, mas que faz amizades com pessoas que estão prestes a sair dele. De certa forma, isso é tanto positivo como negativo para o personagem, pois ele vai ter que começar tudo de novo no próximo ano, depois que seus amigos já estiverem na universidade. Mas Charlie nos dá um olhar externo a essa confusão toda que é o último ano de escola, os dramas, as despedidas e os medos que ele traz. E faz muito sentido que seja Charlie a estar contando essa história, já que é ele que vai ficar para trás, e ele sempre coloca a vida dos amigos e dos parentes na frente da sua própria.

O livro inteiro é sobre Charlie, mas ele parece não perceber isso. Nas cartas, ele fala sobre como está se sentindo, mas sempre há outra pessoa envolvida. É como Sam, a garota por quem ele está apaixonado, diz para ele perto do final do livro. Charlie precisa parar de colocar os outros antes dele, isso não faz bem nem para ele e nem para as pessoas que estão à sua volta. É engraçado ver este tipo de perspectiva em um personagem adolescente e ainda assim senti-lo tão real. Adolescentes normalmente são criaturas egoístas e que se preocupam acima de tudo consigo mesmas. Eles não têm a menor idéia do que estão fazendo, mas agem como se soubessem. Charlie não. Charlie é honesto num nível quase irremediável, mas não tenta impor suas vontades e anseios aos outros. E, por ser assim, ele acaba machucando a si mesmo e aos outros.

Acho que As Vantagens de Ser Invisível é sobre estar em sintonia com o mundo e consigo mesmo. Aquela estabilidade que a gente procura tanto quando está sentado sozinho num banco, durante o recreio, no meio da escola toda. Quando você olha para os lados e não consegue reconhecer ninguém de verdade e, ainda assim, mesmo que só lá no fundo, gostaria de fazer parte de algum daqueles grupos. Mesmo que aquele cara ou mina seja um babaca, mesmo que eles olhem para você como se você fosse esquisito por gostar de livros, por gostar de esportes, por gostar de filmes, por comer um monte de chocolate, por não ter a roupa da moda, por gostar de animes. O que um adolescente mais quer é participar. E é isso que Charlie precisa aprender, a ser parte não só da vida à sua volta, mas também a participar da sua própria vida.

😉

Texto originalmente publica no Coelho Matador.

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