Existe um fenômeno antropológico que faz com que avanços tecnológicos sejam primeiro odiados e temidos pela opinião pública para só depois serem absorvidos pela sociedade como naturais. Isso aconteceu com o rádio, a televisão, acontece com a internet e, claro, acontece com os jogos eletrônicos também.

Não é necessário muito mais do que uma pesquisa simples no Google para encontrar milhares de artigos condenando os jogos à categoria de entretenimento socialmente nocivo, criadores de sociopatas e por aí vai.

Na contra mão deste pensamento, decidimos mostrar alguns exemplos que não são apenas instrutivos de diversas formas, como também permitem vários aspectos de reflexão sobre a sociedade e os indivíduos.

Os três títulos que selecionamos são jogos acessíveis para praticamente todo tipo de jogador – do mais casual ao mais hardcore –, ajudam a entender melhor como as relações de poder se dão dentro da sociedade e, ainda mais importante, o quanto elas podem ser prejudiciais.

 

GRIM FANDANGO (Lucas Arts, 1998)

Esse jogo tem provavelmente a melhor trilha sonora que você vai ouvir. O texto não é sobre isso, mas acho que essa particularidade deve sempre ser lembrada quando o assunto é Grim Fandango. Mas o ponto aqui é outro, selecionamos esse clássico dos anos 90 para essa lista devido à maneira incrível como ele fala sobre política e relações corporativas.

Grim Fandango é uma história de amor, mas não se engane. O jogo fala de Capitalismo e Revolução de uma maneira que só um adventure da Lucas Arts é capaz de fazer. Em termos de relações de poder, elas estão em todas as partes. Nas relações de trabalho, de classe, de gênero e, inclusive, no grande romance central.

Jogava Grim Fandango quando era criança e, ao reviver a experiência com a versão remasterizada de 2015, descobri que muito do que acredito e defendo hoje aprendi com ele.

 

MASS EFFECT (Bioware, 2007)

Sou fangirl? Sou sim, mas existem motivos para isso. Um deles é, com certeza, a abordagem que o enredo da trilogia original de Mass Effect traz das relações de poder. Para mim, só existe imersão se houver identificação e não há nada mais passível de identificação que criticar comportamentos sociais. Mass Effect é extremamente acurado e inteligente nas críticas que apresenta, trazendo a discussão para o mundo real com grande aplicabilidade.

 

[toggler title=”Possível spoiler” ]Existe uma situação em especial, entre as muitas apresentadas, que me chama mais atenção. Me refiro à relação dos Salarians e dos Krogan. Em resumo, os Krogan são evoluídos genética e tecnologicamente pelos Salarians para servirem como armas em uma guerra que se dá em um momento não contemporâneo ao enredo. Quando a guerra termina, eles viram uma “ameaça” ao povo salariano, que decide realizar um controle populacional (aka genocídio) por meio de uma arma biológica que torna a reprodução bem sucedida dos krogan quase impossível. Se isso não é abuso de poder, é difícil dizer o que é. [/toggler]

 

Existem ainda as questões de submissão política, controle de informações e hierarquias militares que questionam o conceito de liberdade e sua aplicação tanto na sociedade real quanto na sociedade imaginária do jogo.

 

THE SIMS (Electronic Arts, 2000)

Lembro bem da primeira vez que li a capa da edição física do The Sims. Em algum lugar dizia: “Brinque de Deus”. Será que nós devemos mesmo sentir esse poder? O que acontece quando nos é dado esse tipo de poder? Aposto que cada um de vocês está agora se lembrando da coisa mais terrível ou moralmente questionável que já fez no The Sims.

Quando estávamos decidindo quais jogos poderiam ser listados aqui, alguém da equipe sugeriu The Sims e a princípio eu fiquei na dúvida sobre a representação das relações de poder, já que não adotamos diretamente o papel de personagens. Mas a verdade é que The Sims é um dos jogos que mostra mais abertamente nossa real natureza, quem nós somos quando temos o poder que quisermos e, infelizmente, a revelação não é bonita.

 

É importante lembrar que esses jogos não são adequados para todos os públicos. Porém, para pessoas adultas, eles são capazes de trazer questionamentos reveladores sobre nossa própria natureza enquanto seres humanos e sobre a construção da nossa sociedade.

Os jogos podem ser sim uma ferramenta de mudança social. Se estiver na dúvida de por onde começar, é só seguir a listinha e jogar com essa perspectiva. Garantimos que será um sucesso. 🙂

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